Fundo Documental Curt Nimuendajú

Curt Nimuendajú – Aquele que fez entre nós sua morada.

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Curt Nimuendajú. Foto: Baukurs

 Curt Unkel chegou ao nosso país em 1903, vindo da Alemanha em busca do contato com as culturas indígenas. Uma vez entre os índios, dedicou toda a sua vida ao estudo e mapeamento dos diversos grupos indígenas nos seus aspectos linguísticos e etnológicos. A partir dessa experiência, “batizado” pelos Guarani, adota o nome Curt Nimuendajú – aquele que fez entre nós sua morada.

 Em 10 de dezembro de 1945, faleceu numa aldeia dos Tukúna, perto de Santa Rita no alto Solimões, o eminente etnólogo Curt Nimuendajú, que foi também grande amigo e protetor dos aborígines brasileiros . Empregou quarenta anos de sua vida no estudo dos idiomas e das culturas indígenas e realizou numerosas expedições até os mais longínquos recantos do Brasil. Não houve, nem por certo jamais haverá melhor conhecedor das tribos índias do país. Dificilmente se encontrará outro cientista em condições de dedicar quatro decênios inteiramente a viagens de exploração etnológica e estudo intensivo da literatura especializada.

  Egon Shaden

A obra dele, sozinha, é maior e mais importante do que a soma das de todos nós que fizemos etnologia antes e depois dele, até hoje em dia. Pena é que nesse país em que se publica tanta besteira, não se tenha editado até agora seus livros só encontráveis em alemão, francês e inglês.

Darci Ribeiro

A vida-obra de Nimuendajú ainda está à espera de um estudo que lhe faça justiça; à parte de alguns curtos ensaios sobre aspectos específicos de suas pesquisas, o que se tem são necrológios e outros textos de circunstância, reivindicações totêmicas e toda uma hagiologia folclórica do métier, exprimindo muito mais os mitos e tensões inerentes ao campo antropológico-indigenista que qualquer outra coisa.

 Eduardo Viveiros de Castro

 

Fundo Documental Curt Nimuendajú

 

A instituição de fundos documentais tem se revelado, em termos políticos, uma tendência importante nos grandes centros e nos laboratórios de pesquisa. Um Fundo Documental não se confunde com Fundos Administrativos, administrados em Bibliotecas e Centros de Documentação.

Nem com a noção de arquivo, no sentido de guarda, instituída pelos fundos administrativos . Os acervos, ao passarem pelo crivo do arquivo, ganham uma indexação que lhes garante referencialidade, o que, no entanto, não garante o acesso aos mesmos. Há todo um jogo de formas de poder e controle envolvendo a guarda dos acervos/arquivos, apagando o acesso a movimentos da história.Trazer estes acervos a público é promover o deslocamento do estatuto destes como peças de memória de arquivo institucionalizada – presas em reservas técnicas - para peças de uma memória em curso, aberta a significações (Souza, 2016). Aqueles que se nomeiam curadores, quase sempre, incorrem em erros ao pensarem que a salvaguarda dos mesmos é trancá-los a sete chaves, quando, na verdade, aí está o grande risco: eis o caso do MN.

Um Fundo Documental, necessariamente, se constitui como espaço político de memória e reflexão. Trazer o acervo de Nimuendajú a público é promover o deslocamento do estatuto do seu acervo de fotos como peças de arquivo/ memória institucionalizada – presas em reservas técnicas - para peças de uma memória em curso, aberta a significações.

Partindo da discussão de uma política de acervos, caminhamos em duas direções: a de trazer o acervo fotográfico de Curt Nimuendajú a público e investir num enfoque acadêmico sobre o mesmo.

Em termos de discursividade, vemos as fotos, por exemplo, para além do registro de um passado. Há uma memória em curso nessas imagens, as fotos são, em verdade, um legado para o futuro, numa conjunção de passado e presente, como nos diz Roland Barthes. Um passado memorizado – como a velha índia Canela, sentada à sombra a fiar o algodão com que tecerá a rede – em conflito com o presente: quantas etnias já foram extintas? quantas dessas práticas não mais se atualizam? Lembro o moema da fotografia, como o define Barthes: “isso-foi". Como gestos discursivos, as fotos são bem mais que simples flagrantes. São relatos históricos, mas que não encerram a história em imagens congeladas. Para que servem os acervos, patrimônios públicos, se não os olharmos para além deles?

Preservação digital de um acervo imemorial.

O interesse de Curt Nimuendajú não se restringiu a textos escritos. Há um registro fotográfico que ultrapassa mais de 3000 imagens, distribuídas em museus no Brasil e no mundo. São imagens de diferentes etnias em diferentes ocasiões, no dia a dia, em práticas rituais e retratos individuais. Além de imagens e catalogações de diversos artefatos. Como a maioria dessas fotos estava se deteriorando, e de grande parte delas ainda se dispunha. A captura digital se procedeu em parceria entre Museu Nacional e FUNARTE, tendo o LABEDIS como executor.

A captura foi feita por meio de Reprodução Fotográfica para Fins de Documentação Museológica, seguindo as recomendações da Biblioteca do Congresso Americano em conformidade com o disposto pela Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos do Conarq/Conselho Nacional de Arquivos. Teve como orientação o antropólogo Edney de Souza e compõe-se de três etapas, das quais apenas a captura foi feita pela FUNARTE:

foto abertura 

   (1) Captura                                                         (2) Gerenciamento de Cor com objetivo         (3) Ajuste tonal
                                                                                  de obter fidelidade tonal ao original.

 

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Jacinta fiando – etnia Kamkã

 Todas essas etapas permitem que o processo como um todo venha a se aproximar num percentual entre 90 a 95% de fidelidade à foto original, em termos de tonalidade e luz. Após um tratamento com softwares e com pessoal técnico igualmente especializado, obtém-se, assim, a restauração das imagens. Dado o estado em que se encontravam os negativos, alguns com perdas significativas de imagens, com rachaduras e ranhuras, caso dos negativos de vidro, a recuperação de uma imagem pode levar entre um a dois dias.

O valor histórico deste acervo é inestimável. Muitos foram os pesquisadores que gostariam de ter acesso ao mesmo, mas dado o fato de imagens presentes na maior parte desses negativas serem inéditas e dada a raridade física – negativos de vidro e flexíveis – do acervo, o mesmo ficou inacessível.

Acompanhar o olhar desse grande pesquisador é trilhar os mesmos caminhos, (re)fazer o mesmo percurso de Nimuendajú na busca de entender como se institui a sua postura política pelos ângulo de seu(s) olhare(s). É buscar partilhar, ainda, o fascínio pela imagem.

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Imposição de um nome a um forno de cobre